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Contania
Armadilha

0,99% ao mês não é 11,88% ao ano

Taxa mensal não se multiplica por 12. A 0,99% ao mês, o ano custa 12,55% — e a diferença cresce com a taxa: o crédito pessoal médio no Brasil está em 6,81% ao mês, que dá 120,41% ao ano, não 81%. Onde a lei obriga o número anual a aparecer.

Publicado em 01 de agosto de 2026

A conta

12,55% ao ano

é o custo de um crédito anunciado a 0,99% ao mês. A conta que quase todo mundo faz — multiplicar por 12 — dá 11,88%, e erra para menos.

Taxa equivalente por juros compostos: (1 + 0,0099)¹² − 1. Confira na calculadora de conversão de taxas, mais abaixo.

A taxa aparece sempre por mês. Na vitrine da loja, no banner do banco, na simulação da financeira: 0,99% ao mês. Nunca por ano.

Não é acaso, e não é bem uma mentira. É a escolha do número que parece menor — e que, no caminho até o ano, cresce mais do que a intuição acompanha.

Multiplicar por 12 é a conta errada

Juros compostos não somam, multiplicam. No segundo mês, a taxa incide sobre o valor original mais os juros do primeiro mês; no terceiro, sobre tudo isso de novo. Por isso a taxa anual equivalente não é a mensal vezes 12:

taxa anual = (1 + taxa mensal)12 − 1

A 0,99% ao mês, isso dá 12,55% ao ano. A conta ingênua dá 11,88%. Uma diferença de 0,67 ponto percentual — pouca coisa, e é justamente por isso que a taxa baixa é a que aparece na propaganda com essa aritmética implícita: nesse patamar, quase ninguém percebe o erro.

O problema é que a diferença não é constante. Ela cresce, e rápido:

Taxa ao mês"Vezes 12"Taxa efetiva ao anoErro
0,99%11,88%12,55%0,67 p.p.
1,99%23,88%26,68%2,80 p.p.
2,99%35,88%42,41%6,53 p.p.
3,99%47,88%59,92%12,04 p.p.
4,99%59,88%79,38%19,50 p.p.

Repare no salto: a taxa mensal quintuplicou de 0,99% para 4,99%, mas o erro da conta ingênua ficou 29 vezes maior. É por isso que a regra de bolso "multiplica por 12" sobrevive: ela funciona razoavelmente onde não importa, e desmonta exatamente onde o dinheiro dói.

O caso real, publicado pelo próprio Banco Central

Não é preciso caçar um anúncio para ver o efeito. O Banco Central publica a taxa média de juros do crédito pessoal não consignado para pessoas físicas em duas séries, a mesma modalidade nas duas unidades. Em maio de 2026 — o dado mais recente quando este texto foi escrito:

  • 6,81% ao mês (série 25464)
  • 120,41% ao ano (série 20742)

Quem multiplicasse por 12 chegaria a 81,72% ao ano. A diferença entre a conta ingênua e o número que o BC publica é de quase 39 pontos percentuais — mais do que o total de muitos financiamentos.

E o efeito no bolso, em reais: R$ 1.000 emprestados a 6,81% ao mês, sem nenhum pagamento no meio, viram R$ 2.204,67 em doze meses. Não é "81% mais caro". É mais que o dobro.

A lei manda mostrar o número anual — nos dois lugares

Essa parte quase ninguém conhece, e ela muda a conversa na hora de contratar.

O Código de Defesa do Consumidor já resolve o essencial. No art. 52, quem oferece crédito é obrigado a informar prévia e adequadamente, entre outras coisas, "o montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de juros" (inciso II) e a "soma total a pagar, com e sem financiamento" (inciso V). A palavra é anual, e está na lei desde 1990.

A Resolução CMN nº 4.881/2020 — em vigor desde 1º de fevereiro de 2021, quando substituiu a antiga Resolução 3.517/2007 — vai além e cria a obrigação que fecha o cerco na propaganda:

As instituições devem informar o CET nos informes publicitários das operações de que trata o art. 1º em relação às quais sejam apresentadas as taxas de juros do crédito ofertado. (art. 8º)

Em português: se o anúncio mostra a taxa, ele tem que mostrar o CET. E o CET, por determinação da mesma resolução (art. 4º, parágrafo único), é expresso "na forma de taxa percentual anual", com duas casas decimais.

Ou seja: o "0,99% ao mês" isolado, sem o número anual ao lado, não é só uma escolha de marketing infeliz. Em anúncio de instituição financeira, é irregular.

CET não é a taxa de juros — e é ele que você compara

Vale separar bem as duas coisas, porque a confusão custa dinheiro.

A taxa de juros é o preço do dinheiro. O CET é o custo da operação inteira. Pela Resolução 4.881/2020 (art. 3º), o cálculo tem que abranger juros, tarifas, tributos, seguros e outras despesas vinculadas à operação — inclusive serviços de terceiros contratados pela instituição por conta do tomador, mesmo quando essas despesas não entram no valor liberado.

Traduzindo o que costuma estar escondido ali dentro:

  • IOF, que num crédito a pessoa física é cobrado por dia sobre o saldo, mais uma alíquota adicional fixa;
  • tarifa de cadastro, cobrada uma vez, no início;
  • seguro prestamista, que muitas vezes vem embutido "para aprovar mais fácil";
  • registro de contrato e avaliação de garantia, nos financiamentos com bem alienado.

Nada disso aparece na taxa de juros. Tudo isso aparece no CET. Por isso comparar duas propostas pela taxa é comparar preços de carro sem contar o frete: a mais barata na vitrine pode ser a mais cara na conta.

Onde encontrar: a instituição é obrigada a informar o CET e a apresentar o demonstrativo de cálculo antes da contratação, com o valor em reais de cada componente; se o contrato for fechado, esse demonstrativo tem que ficar "inserido de forma destacada no respectivo contrato" (art. 7º e § 3º). Se você pedir e não vier, o pedido não é um favor — é uma obrigação da outra parte.

Faça com a taxa que te ofereceram

Pegue o número que está na proposta e veja o que ele significa no ano:

Faça com os seus números

Abrir a calculadora

Seus dados

%
%

Resultado

Taxa ao mês
1%
Taxa ao ano
12,68%
Taxa ao dia
0,03%
Taxa equivalente em diferentes períodos
PeríodoTaxa equivalente
Ao dia0,03%
Ao mês1%
Ao ano12,68%

Funciona nos dois sentidos: converte a mensal em anual e a anual em mensal — útil quando uma proposta vem "ao ano" e a outra "ao mês", que é a forma mais comum de duas ofertas ficarem incomparáveis sem ninguém mentir.

Um cuidado na direção contrária

Existe um segundo erro, menos falado, que é o oposto do primeiro: achar que uma taxa de 12,55% ao ano significa pagar 12,55% do valor financiado em juros.

Não significa. Num parcelamento, você amortiza o saldo a cada prestação, e os juros do mês seguinte incidem sobre um valor menor. R$ 2.000 financiados em 12 parcelas a 0,99% ao mês saem assim:

R$ 2.000 em 12× a 0,99% a.m.Valor
ParcelaR$ 177,59
Total pagoR$ 2.131,02
JurosR$ 131,02

São 6,55% do valor financiado em juros, não 12,55% — porque metade do dinheiro, em média, fica com você menos de metade do tempo.

As duas leituras servem para coisas diferentes, e é isso que fecha o assunto: a taxa anual (ou o CET) compara propostas; o total pago mostra quanto sai do seu bolso. Quem usa uma no lugar da outra erra nas duas pontas — superestima o custo de um parcelamento curto e subestima o de uma dívida que fica rolando.

Perguntas frequentes

Fontes

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