Quanto custa comprar todas as combinações da Mega-Sena? R$ 300 milhões — e ainda assim dá prejuízo
São 50.063.860 combinações possíveis. A R$ 6,00 cada, cobrir todas custa R$ 300.383.160,00 — e garante a sena. Mas a conta de volta é pior do que parece: mesmo ganhando com certeza, quem comprasse tudo sozinho teria prejuízo de cerca de 79%. E ainda faltariam os 870 terminais lotéricos necessários para registrar as apostas a tempo.
Publicado em 04 de agosto de 2026 · atualizado em 05 de agosto de 2026
A conta
R$ 300.383.160,00
é quanto custa comprar as 50.063.860 combinações possíveis da Mega-Sena, a R$ 6,00 a aposta — o suficiente para garantir a sena com certeza matemática.
Mesmo assim, o retorno líquido estimado (num cenário em que essa fosse toda a arrecadação do concurso) é de cerca de 21% do valor gasto — um prejuízo de aproximadamente 79%, mesmo ganhando de certeza.
A Mega-Sena tem 50.063.860 combinações possíveis de 6 números entre 60 — é a própria Caixa quem publica o número, e ele vem direto da combinatória (C(60,6)). Cada aposta simples custa R$ 6,00 (tabela oficial da Caixa, preço vigente em 5 de agosto de 2026 — é a variável mais instável desta conta, e todo o resto se recalcula a partir dela). Fazendo a conta: R$ 300.383.160,00 para comprar literalmente todas as combinações — o suficiente para acertar a sena com certeza absoluta, porque uma das suas apostas é, garantidamente, a sorteada.
Parece um plano perfeito. Não é, e há quatro razões diferentes para isso: a lei, o tamanho do prêmio, o relógio e a experiência de quem já tentou.
Por que garantir a sena ainda dá prejuízo
Por lei, só 43,79% de tudo o que é arrecadado nas apostas vira prêmio bruto (Lei nº 13.756/2018, art. 16, II) — o resto vai para seguridade social, custeio da Caixa, segurança pública, esporte, sistema penitenciário e cultura, por determinação legal, não importa quem ganhe ou quanto.
E nem todo o prêmio bruto é pago no concurso em que a aposta foi feita: 32% ficam retidos — 22% para os concursos de final 0 ou 5, 10% para a Mega da Virada. Só 68% do prêmio bruto (sena + quina + quadra) é distribuído no concurso corrente.
Juntando as duas retenções — supondo, para simplificar, que a compra de todas as combinações fosse a arrecadação inteira daquele concurso, e que ninguém mais tivesse escolhido nenhuma das combinações premiadas:
| Etapa | Valor |
|---|---|
| Gasto (50.063.860 apostas × R$ 6,00) | R$ 300.383.160,00 |
| Prêmio bruto (43,79% da arrecadação) | R$ 131.537.785,76 |
| Pago no concurso corrente (68% do bruto — sena+quina+quadra, todas suas) | R$ 89.445.694,32 |
| Imposto de Renda (30% sobre o prêmio, RIR/2018 art. 732) | R$ 26.833.708,30 |
| Retorno líquido | R$ 62.611.986,02 |
| Prejuízo líquido | R$ 237.771.173,98 (≈ 79,2%) |
Mesmo ganhando a sena com certeza absoluta — e capturando também toda a quina e toda a quadra do concurso, porque as 50 milhões de apostas cobrem todas as combinações possíveis — o retorno fica perto de um quinto do que foi gasto.
Por que isso não é só teoria
Essa conta simplifica um cenário em que a compra de tudo é a arrecadação inteira do concurso e ninguém mais ganha nada. Na prática, um concurso real tem outros apostadores, o que muda dois pontos, em direções opostas:
- Aumenta a arrecadação total (mais gente apostando no mesmo concurso), o que aumenta o prêmio bruto disponível.
- Mas divide o prêmio: se outra pessoa, por acaso, escolheu exatamente a combinação sorteada (ou uma que dá quina/quadra), o valor daquela faixa é rateado entre todos os acertadores — inclusive você, que também a tinha entre as suas 50 milhões de apostas.
Nenhuma das duas mudanças aponta para "compensa": mesmo no cenário mais favorável (sozinho, sem dividir nada), o resultado já é prejuízo. Fora da teoria, ainda existem limites operacionais reais — tempo para registrar dezenas de milhões de apostas antes do fechamento do concurso e limites de venda por ponto — que tornam a estratégia impraticável, além de matematicamente ruim.
E se o prêmio estiver muito acumulado?
Essa é a versão inteligente da pergunta. O que decide entre prejuízo e lucro não é cobrir as combinações — é o prêmio acumulado em relação ao custo de cobertura, porque o acumulado é dinheiro que já foi arrecadado em concursos anteriores e não depende da sua compra.
Vale olhar um caso real, e não um cenário inventado. No concurso 3040, sorteado em 4 de agosto de 2026, ninguém acertou a sena. Segundo os dados da própria Caixa:
| Concurso 3040 (04/08/2026) | Valor |
|---|---|
| Arrecadação do concurso | R$ 105.548.214,00 |
| Acumulado para o concurso seguinte | R$ 133.232.979,58 |
| Estimativa divulgada para o próximo prêmio | R$ 150.000.000,00 |
| Custo de cobrir todas as combinações | R$ 300.383.160,00 |
Um prêmio acumulado de R$ 133,2 milhões cobre 44,4% do custo da cobertura. Mesmo a estimativa arredondada de R$ 150 milhões cobre 49,9% — e isso antes do Imposto de Renda de 30%.
Repare também na primeira linha: a compra de todas as combinações custaria 2,85 vezes a arrecadação inteira daquele concurso. Não é uma jogada dentro do sistema; é uma jogada quase três vezes maior que o sistema naquela semana.
Para o plano fechar, o acumulado precisaria passar de R$ 300 milhões líquidos — ou seja, algo perto de R$ 430 milhões brutos, considerando o IR. Prêmios desse tamanho existem no Brasil, mas praticamente só na Mega da Virada, o único concurso em que a fatia retida ao longo do ano é devolvida de uma vez. E é justamente o concurso com mais apostadores, o que aumenta a chance de dividir o prêmio — que é o cenário que arruína a conta.
Por trás de tudo isso continua o teto legal: o prêmio bruto nunca é mais que 43,79% do que foi apostado naquele concurso. Os outros 56,21% já têm destino definido em lei antes de a primeira aposta ser feita.
O tempo que ninguém tem
Suponha resolvido o problema do dinheiro. Sobra um obstáculo que dinheiro nenhum contorna: registrar 50.063.860 apostas antes do sorteio.
As contas abaixo são aritmética simples sobre premissas declaradas — o tempo por aposta é uma estimativa, não um dado oficial:
| Ritmo | Tempo ininterrupto | Em expediente de 8 h/dia |
|---|---|---|
| Preencher o volante à mão, 20 s por aposta | 31,8 anos | 138 anos de trabalho |
| Só imprimir no terminal lotérico, 3 s por aposta | 4,8 anos | 20,7 anos de trabalho |
| Limite absurdo de 1 s por aposta | 579 dias | 6,9 anos de trabalho |
Entre um concurso e o seguinte há cerca de 48 horas. Nesse intervalo, a 3 segundos por aposta e sem parar nem para dormir, dá para registrar 57.600 apostas — 0,115% das combinações. Para cobrir tudo em uma janela dessas seriam necessários cerca de 870 terminais operando ao mesmo tempo, sem falha, sem fila e sem limite de venda por ponto.
Já tentaram — e quase deu certo
Não é hipótese: a estratégia já foi executada, com investidores de verdade.
Em 1989, o matemático romeno-australiano Stefan Mandel montou o International Lotto Fund, um fundo com cerca de 2.500 investidores e US$ 7,6 milhões em caixa, dedicado exatamente a isso — cobrir todas as combinações de loterias pequenas o bastante para valer a pena. Em 15 de fevereiro de 1992, o fundo levou o prêmio de US$ 27 milhões da loteria da Virgínia, nos Estados Unidos, segundo a cobertura da imprensa local da época.
O detalhe que interessa aqui é o que deu errado no plano perfeito. A loteria da Virgínia tinha 7,1 milhões de combinações. Com um fundo milionário, equipe dedicada e semanas de preparação, o sindicato conseguiu comprar cerca de 5,6 milhões de bilhetes — não cobriu tudo. Ganhou, mas ganhou com sorte: a combinação sorteada podia perfeitamente estar entre os 21% que ficaram de fora.
A Mega-Sena tem sete vezes mais combinações que aquela loteria. Se um fundo profissional não conseguiu fechar 7,1 milhões, a conta de fechar 50 milhões — em 48 horas, com limite de venda por ponto — responde sozinha.
→ Ver a tabela completa de preço e chance por quantidade de dezenas
Perguntas frequentes
Fontes
- Caixa Econômica Federal — Mega-Sena: regras, preço das apostas, tabela de probabilidades
- Lei nº 13.756/2018, art. 16, inciso II — destinação do produto da arrecadação da loteria de prognósticos numéricos
- Decreto nº 9.580/2018 (RIR/2018), art. 732 — imposto de renda de 30% sobre prêmio de loteria
- Caixa — resultado oficial do concurso 3040 da Mega-Sena (04/08/2026): arrecadação, valor acumulado e estimativa do próximo prêmio
- Roanoke Times, 15/03/1992 (arquivo da Virginia Tech) — “Australians stalked lotteries for 2 years”: o International Lotto Fund, de Stefan Mandel, comprou ~5,6 milhões das 7,1 milhões de combinações e levou o prêmio de US$ 27 milhões da loteria da Virgínia