Quanto cobrar por km rodado sem sair no prejuízo
A conta do combustível diz R$ 0,60 por km. O custo real, somando custos fixos, depreciação e os quilômetros que ninguém paga, chega a R$ 1,64 — quase o triplo. Veja as quatro camadas da conta e onde cada uma some.
Publicado em 02 de agosto de 2026
A conta
R$ 1,64
é o piso real para cobrar por quilômetro no cenário deste post — 2,7 vezes os R$ 0,60 que a conta do combustível sugere.
Carro de R$ 80.000, 10 km/l, combustível a R$ 6,00, R$ 8.400/ano de custos fixos, 30.000 km/ano, depreciação de 10% ao ano e 70% dos km faturados. Todos os valores saem da calculadora de custo por km.
"Faço 10 km com um litro, o litro custa R$ 6, então meu custo é R$ 0,60 por km. Vou cobrar R$ 1,00 e ficar com R$ 0,40 de lucro."
Essa conta aparece em toda negociação de frete e em toda discussão sobre tarifa de aplicativo. Ela é aritmeticamente correta e economicamente desastrosa, porque responde a uma pergunta diferente da que foi feita. O combustível é o que você paga hoje; o custo é o que você paga no total.
Vamos montar a conta certa em quatro camadas, e observar onde cada uma desaparece.
Camada 1 — O combustível: R$ 0,60/km
Essa é a única que todo mundo calcula, e a fórmula é simples: preço do litro ÷ consumo. A R$ 6,00 o litro, num carro que faz 10 km/l, dá R$ 0,60 por km.
Guarde esse número. Ele vai aparecer no fim multiplicado por quase três.
Camada 2 — Os custos fixos: +R$ 0,28/km
Seguro, IPVA, licenciamento, revisões, pneus, alinhamento. São gastos anuais, não por viagem, e é por isso que somem: ninguém pensa no IPVA ao aceitar uma corrida.
Mas eles existem, e a única forma honesta de tratá-los é ratear pelos quilômetros do ano. Com R$ 8.400 anuais e 30.000 km rodados, temos R$ 0,28 por km.
Subtotal: R$ 0,88/km
Aqui já paramos boa parte das planilhas que se dizem completas. E aqui ainda falta o item mais caro.
Camada 3 — A depreciação: +R$ 0,27/km
Esta é a que quase ninguém inclui, e o motivo é psicológico: ela não sai da sua conta bancária. Nenhum boleto chega no fim do mês cobrando depreciação. O prejuízo só se materializa no dia em que você vende o carro por bem menos do que lembrava.
Só que ele existe o tempo todo. Um veículo de R$ 80.000 que perde 10% ao ano — faixa usual entre 8% e 15% — custa R$ 8.000 por ano. Rodando 30.000 km, são R$ 0,27 por km.
Repare no tamanho: a depreciação sozinha custa praticamente o mesmo que seguro, IPVA e manutenção somados. É o segundo maior item da conta, atrás apenas do combustível, e é o que mais gente ignora.
Subtotal: R$ 1,15/km
Quem cobra pensando em R$ 0,60 já está, neste ponto, perdendo dinheiro em cada quilômetro — e financiando a diferença com o valor do próprio carro.
Camada 4 — Os quilômetros que ninguém paga: R$ 1,64/km
A quarta camada não é um custo novo. É uma correção de denominador, e é a mais sutil das quatro.
Você roda até o cliente, espera, e volta vazio. Esses quilômetros consomem combustível, desgastam o carro e depreciam o veículo exatamente como os outros — mas não estão na nota. Se apenas 70% dos km rodados são faturados, o custo dos 100% precisa caber nesses 70%:
R$ 1,15 ÷ 0,70 = R$ 1,64 por km faturado
E chegamos ao número real. Não é R$ 0,60. É R$ 1,64 — dois terços a mais do que o subtotal anterior, e 2,7 vezes o custo de combustível de onde partimos.
As quatro camadas lado a lado
| Camada | O que entra | Custo por km |
|---|---|---|
| 1 | Combustível | R$ 0,60 |
| 2 | + custos fixos rateados | R$ 0,88 |
| 3 | + depreciação do veículo | R$ 1,15 |
| 4 | ÷ 70% de km faturados | R$ 1,64 |
Agora o dado que dói. Quem faz a conta da camada 2 — já se achando cuidadoso, porque incluiu seguro e IPVA — cobra R$ 0,88 enquanto tem custo de R$ 1,64. São R$ 0,76 de prejuízo por quilômetro faturado.
Em 21.000 km faturados no ano, isso dá R$ 15.920 de prejuízo anual — aproximadamente o que o carro inteiro deprecia em dois anos. O trabalho não está pagando o carro; o carro está pagando o trabalho.
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Resultado
- Custo por km rodado
- R$ 1,53
- Só depreciação
- R$ 0,53
- Só combustível
- R$ 0,60
- Custo médio mensal
- R$ 1.916,67
| Componente | R$/km |
|---|---|
| Combustível | R$ 0,60 |
| Custos fixos (seguro, IPVA, manutenção) | R$ 0,40 |
| Depreciação do veículo | R$ 0,53 |
| Custo total por km rodado | R$ 1,53 |
| Piso para cobrar (100% dos km faturados) | R$ 1,53 |
Os três campos que mudam tudo são o valor do veículo, a taxa de depreciação e o percentual de km faturados. Zere o valor do veículo para ver a conta que a maioria faz — e depois ligue de novo.
O piso não é o preço
Uma ressalva importante, porque ela separa esta conta de uma tabela de preços.
Os R$ 1,64 são o ponto de equilíbrio: o valor em que você não perde dinheiro e também não ganha nada. Cobrar exatamente isso significa trabalhar de graça com o carro pago em dia — melhor que prejuízo, mas ainda não é um negócio.
Falta somar o que a conta de custo, por definição, não mede:
- O seu tempo. Uma hora dirigindo é uma hora não vendida em outro lugar. Isso tem preço, e não é o preço do combustível.
- A margem de lucro. É o que remunera o risco de ter capital parado num ativo que só desvaloriza.
- O risco de sinistro e imprevisto. Franquia do seguro, um pneu que estoura, um dia parado na oficina.
- A sazonalidade. Meses fracos existem, e os custos fixos não tiram férias.
Por isso a pergunta "quanto cobrar" nunca teve resposta única — ela depende de escolhas suas. O que a conta entrega é o chão: abaixo dele, não há negociação a fazer, porque qualquer volume só aumenta o prejuízo.
O erro mais comum
O erro mais comum é confundir desembolso com custo. O que sai da conta bancária hoje é visível e por isso entra na conta; o que se perde em patrimônio é invisível e por isso fica de fora. A depreciação é a maior vítima dessa confusão, e é justamente o segundo maior item da conta.
O segundo erro é dividir o custo pelos quilômetros rodados em vez dos quilômetros faturados. É uma troca silenciosa de denominador que subestima o piso em mais de 40% em quem trabalha com entrega.
Se for para guardar uma frase: o combustível é o que você paga; a depreciação é o que você perde — e as duas contas vêm no mesmo quilômetro.
Perguntas frequentes
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