O aluguel subiu mais que o salário mínimo? Depende de qual índice você usa
Pelo IGP-M — o índice tradicional dos contratos de aluguel —, o aluguel acumulou 92,2% desde 2016 contra 72,5% do salário mínimo, quase 20 pontos de diferença. Mas pelo IPCA, que mede o que os inquilinos realmente pagaram, o salário mínimo está à frente desde 2020 — e, descontada a inflação dos dois lados, a diferença real de dez anos cai para cerca de 4 pontos. As três contas, com dado bruto para baixar.
Publicado em 04 de agosto de 2026 · atualizado em 05 de agosto de 2026
A conta
19,7 pontos percentuais
é a diferença acumulada entre o aluguel (medido pelo IGP-M, o índice tradicional de contrato) e o salário mínimo, de 2016 a 2025: 92,2% contra 72,5%. Mas pelo IPCA — o que os inquilinos realmente pagaram —, o salário mínimo está à frente desde 2020.
Duas respostas corretas para a mesma pergunta, porque são dois índices diferentes medindo coisas diferentes: um o custo de reajustar um contrato, o outro o preço final observado.
“O salário mínimo não acompanha o aluguel” é praticamente senso comum. A resposta certa é mais interessante do que isso: depende de qual índice você usa para medir o aluguel — e os dois índices mais usados contam histórias diferentes.
A conta pelo IGP-M — o índice tradicional dos contratos
O Índice Geral de Preços–Mercado (IGP-M), da FGV, é o índice historicamente usado para reajustar contrato de aluguel no Brasil. Comparando o acumulado com o salário mínimo (Banco Central, SGS 1619), base 100 em 2016:
| Ano | Salário mínimo | Base 100 | Em R$ de 2016 | IGP-M acum. no ano | Base 100 |
|---|---|---|---|---|---|
| 2016 | R$ 880 | 100,0 | R$ 880,00 | 7,19% | 107,2 |
| 2017 | R$ 937 | 106,5 | R$ 881,55 | −0,53% | 106,6 |
| 2018 | R$ 954 | 108,4 | R$ 871,83 | 7,55% | 114,7 |
| 2019 | R$ 998 | 113,4 | R$ 879,07 | 7,32% | 123,1 |
| 2020 | R$ 1.045 | 118,8 | R$ 882,44 | 23,14% | 151,5 |
| 2021 | R$ 1.100 | 125,0 | R$ 888,71 | 17,79% | 178,5 |
| 2022 | R$ 1.212 | 137,7 | R$ 889,69 | 5,46% | 188,2 |
| 2023 | R$ 1.320 | 150,0 | R$ 916,03 | −3,18% | 182,3 |
| 2024 | R$ 1.412 | 160,5 | R$ 936,60 | 6,54% | 194,2 |
| 2025 | R$ 1.518 | 172,5 | R$ 960,52 | −1,04% | 192,2 |
A diferença salta aos olhos em dois anos: 2020 e 2021, sozinhos, o IGP-M acumulou 45,0% — a disparada de commodities e insumos de construção durante a pandemia, combinada com a desvalorização do real. É esse pico de dois anos que carrega quase toda a diferença dos dez anos inteiros.
A conta pelo IPCA — o que o inquilino realmente pagou
O IGP-M mede o custo de reajustar um contrato — não necessariamente o preço pelo qual um imóvel é efetivamente alugado no mercado. Para isso existe o subitem aluguel residencial do IPCA (IBGE), que só tem série completa a partir de 2020:
| Ano | Salário mínimo (base 100, 2020) | Aluguel IPCA (base 100, 2020) |
|---|---|---|
| 2020 | 100,0 | 100,0 |
| 2021 | 105,3 | 109,9 |
| 2022 | 116,0 | 119,5 |
| 2023 | 126,3 | 123,3 |
| 2024 | 135,1 | 127,5 |
| 2025 | 145,3 | 135,2 |
Aqui a história muda: de 2020 a 2025, o salário mínimo subiu 45,3%, o aluguel (IPCA) subiu 35,2%. O salário mínimo está à frente, não atrás.
Tirando a inflação dos dois lados
As duas contas acima são nominais: comparam números que a inflação empurrou para cima ao mesmo tempo. Para saber o que mudou de verdade, é preciso deflacionar as duas séries pelo mesmo índice geral de preços — o IPCA (Banco Central, SGS 433).
Em reais de 2016, o salário mínimo saiu de R$ 880,00 e chegou a R$ 960,52 em 2025: um ganho real de 9,1% em dez anos. O trajeto não foi de subida constante — entre 2018 e 2022 o poder de compra ficou praticamente parado, oscilando em torno do valor de 2016, e todo o ganho real se concentra a partir de 2023.
Do outro lado, o aluguel medido pelo IGP-M, deflacionado pelo mesmo IPCA e na mesma base:
| Ano | Aluguel via IGP-M (nominal) | Deflacionado pelo IPCA |
|---|---|---|
| 2016 | 107,2 | 107,2 |
| 2018 | 114,7 | 104,8 |
| 2020 | 151,5 | 127,9 |
| 2021 | 178,5 | 144,2 |
| 2023 | 182,3 | 126,5 |
| 2025 | 192,2 | 121,6 |
Aqui aparece a história inteira. Em 2021, no auge, o IGP-M tinha subido 34,5% acima da inflação em relação a 2016 — foi aí que reajuste de aluguel virou assunto de jornal. Desde então, quase todo esse excesso foi devolvido: em 2025 sobra 13,4% acima da inflação.
Contra os 9,1% de ganho real do salário mínimo, a diferença real de dez anos é de cerca de 4 pontos percentuais — não os 19,7 pontos da conta nominal. Os outros ~16 pontos eram inflação aparecendo dos dois lados, e um pico de dois anos que já passou.
Por que os dois índices discordam
Não é erro em nenhum dos dois — eles medem coisas diferentes:
- IGP-M: pesa fortemente preços no atacado (Índice de Preços por Atacado responde por 60% do índice) e é sensível a câmbio e commodities. Serve para contratos porque é publicado cedo e é previsível na metodologia, mas pode se descolar do que está de fato acontecendo no mercado de aluguel.
- IPCA aluguel residencial: é uma pesquisa direta de preços pagos por consumidores, reflete o que está sendo cobrado de fato — mas reage mais devagar, porque a maioria dos contratos não é reajustada todo mês.
Depois do salto de 2020-2021, essa divergência ficou visível o bastante para que reajustar por IGP-M ou por IPCA virasse uma cláusula disputada em renovação de contrato — nenhum dos dois é obrigatório por lei, é acordo entre as partes.
Os dados, para conferir ou usar
Nenhum número deste post é opinião: são quatro séries oficiais, acumuladas mês a mês a partir do dado bruto. A planilha traz, ano a ano, o salário mínimo nominal e deflacionado, o deflator do IPCA usado, o IGP-M nominal e deflacionado, e o subitem aluguel residencial do IPCA — com a metodologia no rodapé do arquivo:
↓ Baixar CSV (salário mínimo nominal e real × IGP-M × IPCA aluguel, 2016–2026)Para acompanhar a correção de um valor específico pelo IPCA:
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|---|---|
| Valor original | R$ 1.000,00 |
| Correção (20%) | R$ 200,00 |
| Valor corrigido | R$ 1.200,00 |
Perguntas frequentes
Fontes
- Banco Central — Salário mínimo (SGS, série 1619)
- Banco Central — IGP-M, variação mensal (SGS, série 189)
- Banco Central — IPCA, variação mensal (SGS, série 433) — usado como deflator das duas séries
- IBGE/SIDRA — Tabela 7060: IPCA, variação mensal por subitem (a partir de janeiro/2020) — subitem 2101001 Aluguel residencial